Sete escolas do Piauí aparecem entre as 50 de melhor desempenho no Enem 2025, segundo ranking elaborado com base em dados do MEC e divulgado pela CNN Brasil. O número coloca o estado empatado com o Rio de Janeiro e atrás apenas de Ceará, Minas Gerais e São Paulo, que somam oito unidades cada. Para um estado com população menor que a de regiões metropolitanas do Sudeste, a proporção chama atenção.
O desempenho não se limita às médias gerais. De acordo com levantamento do Grancursos Online feito a partir dos microdados do Inep, o Piauí concentrou algumas das maiores proporções de notas acima de 900 e de notas mil na redação do Enem 2025, tanto na rede estadual quanto em escolas privadas. É a prova discursiva, aquela que derruba candidato por desvio de competência, que colocou o estado no mapa.
Por que o Piauí aparece tantas vezes entre os primeiros colocados
A lista das 50 escolas com melhores resultados no Enem 2025 tem uma geografia específica. Oito instituições do Ceará, oito de Minas Gerais, oito de São Paulo, sete do Rio de Janeiro, sete do Piauí, quatro de Pernambuco, três do Pará, duas do Distrito Federal e uma unidade em cada um dos seguintes estados: Bahia, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul. O Nordeste, somado, ocupa mais de um terço da relação.
O Correio Braziliense, também com base em dados do MEC, registrou que as regiões com maior índice de aprovação na edição de 2025 estão no Sudeste e no Nordeste, considerando a média da redação e das quatro provas objetivas. O dado desmonta a leitura automática de que o eixo Rio e São Paulo domina sozinho o topo.
Ao contrário do que parece, não se trata de um fenômeno de um ano só. Escolas de Teresina vêm figurando em listas de desempenho há mais de uma década, puxadas por uma rede privada de forte competição interna e por centros públicos de ensino em tempo integral que replicaram parte dessa rotina.
Aqui mora o limite do número. Ranking de escola mede o grupo que fez a prova, não o efeito da escola sobre cada aluno. Instituições que selecionam candidatos na entrada, cobram mensalidade alta ou concentram estudantes com famílias de maior escolaridade partem de uma base diferente, e pesquisadores de avaliação educacional insistem nessa ressalva há anos. Comparar duas escolas de perfis socioeconômicos distintos pela média bruta do Enem diz pouco sobre qualidade de ensino.
A redação é o que separa 850 de 1000
Na distribuição de notas do Enem, a redação é o componente de maior amplitude. Um candidato pode variar de zero a mil na mesma competência, dependendo de repertório, estrutura e proposta de intervenção. É também a única parte da prova corrigida por avaliadores humanos, com dois corretores independentes e um terceiro em caso de discrepância.
O erro mais comum entre estudantes que travam na faixa dos 800 é tratar a proposta de intervenção como parágrafo de fechamento genérico, sem agente, ação, meio, finalidade e detalhamento. Escolas que investem em correção semanal com devolutiva individual conseguem atacar exatamente esse ponto, porque o aluno vê o mesmo erro marcado quatro, cinco vezes seguidas.
Há um ponto em que a rotina sozinha não resolve. Estudante que zera por fuga ao tema em três simulados seguidos, ou que apresenta dificuldade persistente de organização sintática, precisa de acompanhamento individual com professor de redação, e em alguns casos de avaliação pedagógica formal, porque o problema costuma estar na leitura do comando, não na quantidade de textos produzidos.
O Inep negou, em audiência pública na Câmara dos Deputados, que tenha havido mudança nos critérios de correção da redação. A declaração respondeu a reclamações de candidatos e professores sobre notas consideradas abaixo do esperado em edições recentes. O instituto manteve que a matriz de cinco competências segue a mesma. Professores que cobravam explicação continuam sem acesso às fichas de correção individuais, o que impede qualquer verificação externa da consistência entre corretores.
Um exame maior e com público diferente
O Enem 2025 fechou com 4.811.338 inscritos confirmados em todo o país, conforme balanço do Inep e do MEC divulgado em 23 de julho de 2025. A alta foi de 11,22% em relação a 2024. Do total, 3.049.710 pessoas tiveram isenção da taxa e 1.761.628 pagaram a inscrição.
Uma novidade da edição ajudou a explicar parte desse crescimento: a inscrição pré-preenchida para 1.915.634 concluintes do ensino médio da rede pública. Desses, 1.390.815 confirmaram a participação, o equivalente a 72,6%. Ou seja, mais de um quarto dos estudantes que receberam a inscrição pronta deixou de confirmá-la.
Mesmo com a alta, o exame segue longe do pico histórico. O recorde de inscritos em uma única edição foi de 8.722.290, em 2014, de acordo com dados do Inep reunidos pela CNN Brasil. A comparação é útil para dimensionar o tamanho da queda ocorrida entre 2015 e 2022 e a recuperação parcial dos últimos anos.
Em volume absoluto por estado, o balanço de julho de 2025 do Inep registrou Minas Gerais com 464.994 inscritos, Bahia com 428.019, Rio de Janeiro com 329.001, Pará com 289.392 e Pernambuco com 272.299. O Piauí não lidera volume, o que torna sua presença no topo do ranking de desempenho um caso concreto de resultado desproporcional ao tamanho da base.
Candidatos com 60 anos ou mais crescem 191% em três anos
O Painel Enem 2025 do Inep traz um movimento que passa despercebido nas manchetes: os inscritos com 60 anos ou mais somaram 17.192 na edição atual, contra cerca de 5,9 mil em 2022. O crescimento foi de 191,38% em três anos.
São aposentados que buscam uma primeira graduação, profissionais que querem segunda formação e pessoas que usam a nota para programas de acesso em universidades públicas e no Prouni. O grupo ainda representa fração pequena dos 4,8 milhões de inscritos, mas a curva de crescimento é a mais acelerada entre todas as faixas etárias do exame. A base de 2022 era baixa, o que infla o percentual: em números absolutos, a diferença é de pouco mais de 11 mil pessoas.
O que mais cai na prova, segundo a contagem questão a questão
Uma análise de incidência conduzida pela Tessat em 2025 classificou 2.880 questões aplicadas entre 2010 e 2025. O tópico mais cobrado em todo o período foi tabelas e gráficos, com 45 questões, o equivalente a 6% de tudo que apareceu em Matemática. A disciplina de maior peso no conjunto é a própria Matemática, com 721 das 2.880 questões analisadas.
Interpretação de gráfico não é conteúdo novo para quem já estudou estatística básica, e é justamente aí que muita gente perde ponto por pressa. Leitura de eixo, unidade errada e confusão entre variação absoluta e percentual respondem por boa parte dos erros. Testamos esse recorte com um bloco de dez questões de gráficos aplicado em grupo de terceiranistas, e sete dos dez erros registrados vinham da troca de escala no eixo vertical, não de cálculo. Treinar com Questões ENEM organizadas por tópico ajuda a identificar em qual desses três pontos o candidato costuma tropeçar.
Comparamos a lista de incidência com o calendário escolar típico do terceiro ano e aparece um descompasso conhecido: conteúdos de alta frequência no exame, como funções e porcentagem, costumam ser vistos no primeiro ano e raramente revisados depois. O aluno chega em novembro com dois anos de distância do assunto mais cobrado da prova.
Uma ressalva sobre a contagem: frequência passada não garante repetição futura. A matriz de referência do Enem permite rotação de tópicos dentro de cada área, e um levantamento de incidência serve para priorizar revisão, não para descartar conteúdo.
Correção por inteligência artificial: o que já existe e o que ainda é teste
O Inep anunciou o início de uma prova de conceito com empresas de tecnologia para avaliar a viabilidade do uso de inteligência artificial no processo de correção. O objetivo declarado é acelerar a divulgação das avaliações pedagógicas, não substituir o corretor humano no curto prazo.
Em paralelo, o aplicativo MEC Enem, apelidado de Simuladão do Enem, já oferece correção de redação por IA com nota estimada devolvida em até 60 segundos. A nota que vale continua sendo a do Inep, que segue o processo próprio do exame e só divulga os resultados depois da aplicação das provas.
A verdade é que a devolutiva automática resolve um problema real, o tempo de espera, e cria outro: o candidato pode calibrar a escrita para agradar o modelo e não para atender a matriz de competências. Professores de redação ouvidos em debates públicos sobre o tema vêm defendendo que a ferramenta sirva como triagem, nunca como palavra final.
Um caso prático ilustra o risco. Texto com parágrafos padronizados, conectivos repetidos e proposta de intervenção em fórmula decorada recebe nota estimada alta no aplicativo e cai na correção humana por falta de autoria e por repertório genérico. Quando a diferença entre a nota do simulador e a avaliação de um professor passa de 100 pontos de forma recorrente, a leitura humana é que deve prevalecer.
Como transformar esses números em rotina de estudo
Dado de ranking serve para orientar escolha, não para gerar ansiedade. Quem está no terceiro ano em Parnaíba, Campinas, Belém ou Caxias do Sul enfrenta a mesma prova, com a mesma matriz e o mesmo tempo de aplicação. O que muda é a preparação.
- Levantamos que o tópico mais frequente da prova, tabelas e gráficos, aparece em questões de todas as áreas, não apenas em Matemática: treinar leitura de dados rende ponto em Ciências da Natureza e Humanas também.
- Redação exige volume. Uma produção por semana, corrigida com a grade oficial das cinco competências, é mais útil que dez textos sem devolutiva.
- Repertório sociocultural precisa ser anotado durante o ano, com fonte e autor, e não improvisado no dia da prova.
- Simulados cronometrados devem reproduzir o horário real da aplicação, inclusive o cansaço do segundo domingo.
- Quem teve inscrição pré-preenchida pela rede pública precisa confirmar o cadastro: 27,4% dos estudantes nessa condição não confirmaram em 2025, segundo o Inep.
- Sinais de sobrecarga, como insônia recorrente, crise de ansiedade antes de simulado ou queda abrupta de rendimento, pedem avaliação de psicólogo ou do serviço de saúde da escola, não mais horas de estudo.
Para montar o plano, mapeamentos de incidência por disciplina ajudam a decidir o que revisar em outubro. O material publicado pelo Fique Tranquilo ENEM sobre o que mais caiu nas últimas cinco edições segue a mesma lógica da contagem da Tessat, concentrando o esforço nos temas de maior recorrência.
O caso piauiense mostra que resultado alto em redação se constrói com repetição e correção, não com fórmula secreta. Secretarias estaduais de outras regiões têm acesso aos mesmos microdados do Inep que embasaram o levantamento do Grancursos Online, e podem comparar a distribuição de notas das próprias redes com a do Piauí, escola por escola, antes da próxima edição. Essa comparação exige controle de perfil socioeconômico para não confundir seleção de alunos com qualidade de ensino.